Na coluna leitura de domingo de hoje gostaria de compartilhar com vocês a minha experiência de leitura do livro Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo. A história gira em torno do personagem Fio Jasmin, um homem negro, bem atraente, que trabalha em um trem e se relaciona com diversas mulheres de cidades diferentes, de estação a estação.
O livro faz uso de uma narrativa não linear e é construído através de vozes das mulheres que cruzam os trilhos de Fio Jasmin, criando uma atmosfera envolvente e que aproxima o leitor. A obra representa uma reflexão potente sobre gênero, raça e afeto, apresentando uma narrativa que apesar de ter um homem como figura central, é essencialmente feminina em perspectiva e abordagem.
A escrita de Conceição Evaristo é rítmica e utiliza uma linguagem que remete a oralidade, transformando a leitura em uma experiência única e que estimula os sentimentos e os sentidos. A narrativa também é poética, mas ganha um tom de crônica de costumes. É um livro que incomoda porque nos faz questionar de forma bem fluida e envolvente.
É o trem que dita o ritmo da escrita e cada história de uma mulher é uma estação. O amor é uma estação, um lugar de desembarque e também de partida. Fio Jasmin pode ser visto como a figura do trem, uma presença marcante e que atrai atenção por onde passa.
O livro é um representante do conceito de escrevivência, que Conceição Evaristo defende. É a escrita que nasce das experiências vivenciadas. As diversas mulheres que passam pela vida de Fio Jasmim, não são apenas personagens fictícias, são ecos de mulheres negras reais, que a autora conheceu, ouviu falar e coloca as mulheres como sujeitas com suas próprias histórias, desejos, saudades, dores, prazeres e satisfação. É um livro tão envolvente que você lê em uma viagem de trem.

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